Na água deitada
2026, Fotografia
Na água deitada é uma série de fotografias realizada em 2026, em Portugal, que dá continuidade à pesquisa sobre a ressignificação de mobiliários e objetos cotidianos, deslocados de suas funções originais para adquirir novos sentidos simbólicos.
Para a realização do trabalho, a artista encontrou, em uma feira de objetos antigos e usados, uma cama de ferro parcialmente quebrada. Já em desuso, o objeto conserva vestígios de uma história que não conhecemos: pertenceu a alguém, ocupou um espaço doméstico e participou de uma vida cotidiana antes de ser abandonado. A artista então o desloca para diferentes paisagens ao ar livre.
Sem colchão ou estrado, resta apenas seu esqueleto, sua estrutura mais essencial, constituída por linhas que já não oferecem a possibilidade do repouso. A imagem da cama permanece, mas sua função de acolhimento e conforto é interrompida. Essa condição remete ao desconforto inerente à experiência humana e à necessidade de caminhar com o tempo, em vez de resistir à sua passagem. O trabalho nasce de questionamentos da artista sobre os movimentos internos relacionados ao perdão, à valorização do presente e à impossibilidade de permanecer indefinidamente acomodado.
O deslocamento da cama para cenários transitórios, a céu aberto, reforça essa tensão. Por mais estáveis e belas que essas paisagens possam parecer, elas contrastam com a ideia de proteção e permanência normalmente associada ao espaço doméstico. A cama, retirada do lugar que originalmente lhe conferia função, passa a existir em um ambiente sujeito ao tempo, ao clima e às transformações da natureza, colocando em questão as ideias de estabilidade, conforto e permanência.
Ao mesmo tempo, inserida em cenários amplos, vazios e silenciosos, a cama torna-se uma presença solitária. A escala da paisagem e o isolamento do objeto sugerem um tempo de desaceleração e atenção às grandes questões da vida. Cria-se, assim, um espaço simbólico de escuta, no qual o contato com o próprio interior se torna possível e no qual a espera, o silêncio e a solidão não precisam necessariamente ser resolvidos, mas podem ser sustentados como parte da experiência humana.







